quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O novo presidente do STF e, acreditem, as cotas



O Ministro Joaquim B. Barbosa Gomes tem, de um modo geral, empolgado positivamente a população brasileira com sua postura no julgamento do “mensalão”. O que é muito merecido, pois revelou um relatório/voto sério e idôneo oriundo de um trabalho árduo e, sem dúvida, sob muita pressão.
Ontem ele foi unanimemente eleito Presidente do STF. Um dos cargos mais altos e importantes de nosso país. Fato que me emocionou fortemente, assim como grande parcela da sociedade.

Porém, hoje, deparei-me com inúmeras provocações afirmando que o mesmo é negro e não precisou de cotas para chegar onde chegou. (Parem tudo!)


Tal incoerência (O Ministro é um dos maiores defensores das referidas políticas na atualidade) que se pretende irônica, apenas confirma minha tese: As ações afirmativas para população não-branca é o maior "dedo na nossa ferida". Não há tema, discussão e política que incomodem e mexam mais com nossas estruturas e lógicas coloniais do que as cotas para população negra e indígena.


Mesmo diante de um momento e de uma história de vida que congregam politicamente a população, as cotas aparecem como discórdia.


As mesmas já são uma realidade nas universidades brasileiras há uma década. O projeto de Lei que as determina nas instituições de ensino superior (IES) federais foi aprovado nas duas casas legislativas, após anos de debate e intensa oposição midiática. A presidente Dilma fez questão que a referida lei fosse sancionada em uma sessão solene, devido a importância da mesma. O STF declarou as mesmas constitucionais e absolutamente necessárias. Ou seja, todo o Estado brasileiro confirmou a constitucionalidade, importância e necessidade das ações afirmativas para populações negras e indígenas. Porém, essas continuam sendo atacadas incessantemente por uma população ludibriada pelo falso ideário de que não somos tão racistas assim.


As ações afirmativas para população não-branca são as únicas políticas que além de promoverem equidade racial, combaterem os discursos e práticas racistas, também provocam o incomodo absolutamente imprescindível para a percepção de que ainda somos uma sociedade subjetivamente colonizada. Incômodo capaz de perdurar mais de uma década, enfrentando gigantes políticos, acadêmicos e midiáticos e ainda sim perseverar, transformar e melhorar a nossa sociedade.


Os espaços que produzem e disputam poder e conhecimento não são mais os mesmos. As pessoas que lá circulam e atuam não possuem mais a mesma cor, história e origem, o que mesmo inconscientemente tem provocado mudanças essenciais.  Hoje temos em nossas IES inúmeros estudantes de arquitetura  e engenharia civil que cresceram em CDHU’s e afins, estudantes de medicina que sempre dependeram dos sistemas  públicos de saúde, estudantes de direito que foram constantemente abordados por policiais simplesmente porque não possuem um perfil de “gente de bem”, estudantes de química que cresceram lendo em rótulos de xampu e condicionador que seus cabelos precisam ser domados, estudantes de administração que sentiram na pele a discriminação de um processo seletivo que prioriza o que é socialmente entendido como “boa aparência”. Enfim, a experiência dessas vidas marcadas pela crueldade da diferença hierarquizada pode, se quisermos, mudar a maneira como enxergamos o mundo e produzimos conhecimento sobre ele. 


Para isso, precisamos seguir e não mais perder tempo com a discussão sobre ser ou não favorável as cotas. Elas já são uma realidade, queira você ou não. Esse debate é a última estratégia que restou para as elites conservadoras de nosso país. Agora, a discussão é e deve ser qualitativa. Qual tipo de transformação queremos que as ações afirmativas provoquem? Estamos em momento crucial, no qual podemos fazer dessas políticas um meio de alterar nossa subjetividade colonizada, a começar pela reforma de todo currículo educacional, do ensino básico à pós graduação, desconstruindo nossa epistemologia eurocêntrica, portanto, racista, xenófoba, machista, homofóbica, entre outras discriminações correlatas.

Acredite, as cotas não te incomodam à toa. Incomodam porque te obrigam a pensar. E pensar dói.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

O caso Monteiro Lobato

Antes de mais nada, é necessário pontuar alguns fatos:

1) A denúncia de racismo no livro "Caçadas de Pedrinho" não foi uma iniciativa do governo ou do Conselho Nacional de Educação (CNE), pelo contrário, o conselho foi requisitado para dar um parecer após um cidadão, Antônio Gomes da Costa Neto, mestre em educação, fazer a denúncia.

2) O CNE não proibiu a distribuição do livro. Apenas indicou que o mesmo seja acompanhado de uma nota técnica, que instrui @s professores a contextualizar a obra ao momento histórico em que ela foi escrita.

3) Monteiro Lobato era assumidamente racista e, para além da literatura, escrevia cartas nas quais afirmava sua ideologia não apenas racista, mas também eugênica:
"País de mestiços, onde branco não tem força para organizar uma Kux-Klan (sic), é país perdido para altos destinos. (...) Um dia se fará justiça ao Ku-Klux-Klan; tivéssemos aí uma defesa desta ordem, que mantém o negro em seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca - mulatinho fazendo jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva" (carta de Lobato enviada a Arthur Neiva em 10 de abril de 1928)

4) O referido livro faz referências diretas entre as personagens negras e os macacos, reforçando os discursos coloniais, ainda vigentes em nosso imaginário, que animalizam e, portanto, inferiorizam e desumanizam as pessoas negras.

5) A última edição do livro em questão foi publicada pela Globo Editora.



Depois desses cinco pontos expostos, fica mais evidente que a polêmica é alimentada e arquitetada pela parcela conservadora que detém o poder midiático e acadêmico do país.

O CNE juntamente com o movimento negro reivindicam que livros como esse sejam contextualizados e problematizados para que tais lógicas racistas não continuem sendo reproduzidas resignadamente por noss@s professor@s e estudantes.
Isso não é óbvio??? Qual é o crime disso???
Crime é o racismo. Lei conquistada constitucionalmente pelos movimentos sociais desse país.
E seja você "gente boa", artista, brilhante, genial, comediante, o que for... aqui não tem mais espaço para o racismo e, sim, vamos lutar em todas as instâncias para que isso se torne uma realidade concreta o mais rápido possível.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

USP, polícia militar e mídia: Protesto, repressão e superficialidade

Eu tenho um ponto de partida para fatos complexos e polêmicos: Desconfiar de tudo que a mídia, principalmente a Globo, defende, apóia e/ou desqualifica.
Minha análise sobre os protestos estudantis na USP partiu dessa inquietação.
Os discursos midiáticos acerca dos estudantes e de suas manifestações são todos estereotipados e com intuito de desqualifica-l@s. E isso logo me chamou atenção. Por que estão tratando esse assunto, tão sério, de modo tão superficial? Por que generalizar e rotular tais sujeitos, ao invés de fazer sua função, que é investigar e levar ao público os detalhes, as causas e demandas de modo contextualizado?
 

Obviamente não é do interesse da mídia, nesse caso, fazer sua função. Ela esta nitidamente posicionada. Os estudantes, suas ações e suas demandas foram jogadas no mesmo saco e vendidas nas telas e capas como vagabundagem, irresponsabilidade e “coisas de maconheiro”.
Eu tenho inúmeras críticas à postura elitista (intelectual, racial, econômica, sexual, regional, etc) que vigora nos corredores e nas mentes da Cidade Universitária. O que, infelizmente, é o reflexo contemporâneo e evidente das conseqüências da colonização de nossas subjetividades e práticas.  Pois, como diz Caetano Veloso, “Narciso acha feio o que não é espelho...”. Não é apenas na USP que estão os “Narcisos”. Eles estão no país inteiro. Acontece que na maior universidade da América Latina há uma maior concentração deles.
No entanto, o que ocorre nas últimas semanas naquele campus é reflexo de outra natureza. Os estudantes reclamam de algo problemático que tem ocorrido em diversos locais de nosso país. E que só ganhou tal proporção porque, agora, é na USP.


Há um acordo, em vários países do mundo, de que a polícia só entra nas universidades com autorização da reitoria. Isso tem um porquê razoável, devido ao histórico abusivo da polícia contra as manifestações estudantis e políticas, principalmente no Brasil – vide a última ditadura oficial.
O atual reitor da USP, o qual tem seu mandato sob rechaço em razão do nebuloso processo que o elegeu, estabeleceu um convênio com a polícia militar para coibir furtos, latrocínios, etc. 
O verdadeiro problema esta nesse “etc”. 
Pois há um conjunto complexo de significados, discursos e práticas ocorrendo na Cidade Universitária desde que a polícia lá se estabeleceu.  Inúmeras intervenções abusivas contra funcionários, professores e estudantes foram reclamados nas últimas semanas. A apreensão dos três rapazes com porte de maconha foi apenas um estopim. Um estopim infeliz, que a mídia fez questão de explorar, ao máximo, para subverter o que de fato importa ser debatido socialmente.


Polícia não educa ninguém. E só discorda dessa afirmação aquel@s que sentem saudades da ditadura militar.
O que esta acontecendo na USP não é muito diferente do que vem ocorrendo nos morros do Rio de Janeiro, com a implantação das UPP’s – Unidade de Polícia Pacificadora. Ou seja, uma doutrinação arbitrária por meio da violência, repressão e disciplina dos corpos e mentes.
É um absurdo o que significa tais unidades. E mais absurdo ainda é a sociedade aceita-las de bom grado. O que não é difícil de entender quando observamos a maneira amistosa que a mídia narra as suas invasões e atuações. O que me preocupa seriamente é que toda a estrutura física e simbólica implantada lembra-me muito o Holocausto: As favelas cariocas se tornarão campos de concentração e nós ficaremos como telespectadores bobos e inertes perante o terror.


Ano passado, eu tive o desprazer de conhecer a UPP da Cidade de Deus. O policial parou meu carro e arrogantemente me ensinou o comportamento devido: “Quando você se aproximar da polícia deve desacelerar e desligar o farol. Se você tem medo da gente, a gente também pode ter medo de você e agir...”. Eu, descrente que aquilo pudesse ser real, apenas respondi “Eu não tenho medo de vocês. Eu deveria ter?”.
Desde então me interesso pela UPP. E o que descubro é de arrepiar os cabelos. Há horário de recolher, não se pode andar sem camisa em pleno calor carioca, não se pode ouvir música de bandido, ou seja, músicas afrobrasileiras: funk, rap, etc. Enfim, um projeto eugenista e higienista.


Infelizmente, o que ocorre nos morros cariocas, onde a maioria é negra e pobre, não interessa a quase ninguém. Já na USP a história é diferente. O que acontece lá interessa bastante e é por isso que o debate esta sendo empobrecido, superficializado e estereotipado pela mídia e pelo Estado. "Deixem que pensem que esses “USPianos” são um bando de vagabundos, maconheiros e mimados! Assim o que eles disserem e reivindicarem não fará o menor sentido e ainda serão condenados simbolicamente por todos."
Enquanto isso, nossa sociedade esta sendo doutrinada por uma polícia arrogante, despreparada, racista, machista e homofóbica...

domingo, 19 de junho de 2011

Vomitando alguns "sapos"

Meus prazos estão mais do que estourados. Tenho páginas incontáveis para preencher: relatórios, provas, tese, artigos, etc. Estou literalmente com a corda no pescoço.
Porém, algo me impede, estanca minhas palavras e não consigo produzir.
Hoje me perguntei se não seria um congestionamento de vocábulos, sentimentos e palavrões na minha garganta o que estaria atrasando a minha “pauta oficial”.
A resposta? Provavelmente sim. Diante disso, resolvi liberar o trânsito das minhas idéias engasgadas e escrever nesse blog novamente....

 

Li, um pouco mais cedo, que a ONU deliberou que os direitos universais não devem ser restringidos em razão da sexualidade dos sujeitos. Parece algo óbvio, não é? Não foi para 19 delegados que se manifestaram contrários e 3 que se abstiveram.
A decisão foi bem apertada. Uma vantagem de apenas três votos definiu que a dignidade humana manifesta nos direitos universais deve ser cumprida de forma integral a tod@s, independentemente das suas relações afetivas e sexuais. Ou seja, a sua sexualidade, a minha ou de qualquer outra pessoa não deve definir o sentido e as garantias da humanidade que vigora em nós.

Na próxima semana, ocorrerá a maior Parada do Orgulho Gay do mundo, na cidade de São Paulo, que terá como tema a frase bíblica "Amai-vos uns aos outros" como gancho para a exigência da criminalização da homofobia, por meio do projeto de lei 122/06. Trata-se de um debate que deveria ser realizado com coerência política, histórica e judicial, mas que, infelizmente, tem sido tumultuado pelos cristãos que, assim como os 19 delegados da ONU, não admitem que pessoas não-heterossexuais tenham seus direitos básicos (vida, integridade física e emocional, etc) garantidos pelo Estado.

Para o meu bem, enquanto socióloga, e para o meu mal, enquanto ser humano, eu convivi a maior parte da minha vida com cristãos devotos, dentro e fora da igreja. Freqüentei escola dominical, cultos, acampamentos de carnaval, treinamentos, palestras, reuniões de oração e todo tipo de atividade que a igreja proporciona. Também li e estudei seriamente a bíblia durante anos. Eu me dediquei 100% ao cristianismo: corpo, mente, espírito, relações, desejos, subjetividade integralmente consagrados ao evangelho, como eu realmente acreditava que devia ser. Cumpri todas as regras comportamentais que a bíblia e a igreja exigem e para minha eterna vergonha eu agi exatamente como uma cristã exemplar: neguei a mim mesma a minha essência, a minha sinceridade, a minha humanidade. E o pior de tudo: incentivei outras pessoas a fazerem o mesmo.

Sabe o que acontece quando negamos a nossa humanidade? Sentimos que somos superiores de algum modo.

Perceber essa arrogância espiritual fingida de santidade por meio de falsos discursos sobre amor e humildade me fez compreender o quanto eu afastava e marginalizava aqueles que deveriam ser o “meu próximo”.  O quanto eu cruelmente exigia, daqueles que chamava de irmãos, que vivessem um único padrão “santo” de vida e de relação com o divino.

O chão literalmente abriu sob os meus pés quando compreendi que esse padrão de vida (que é socialmente coercitivo e impositivo até para aqueles que não são e não querem ser cristãos) exclui, discrimina, mata, humilha, segrega, desumaniza, demoniza tod@s que estão, de alguma forma, fora dele.

O ser humano é incrivelmente complexo e interessante! É impossível esperar que sejamos iguais. A diferença deveria dar sentido à humanidade, orientar nossas relações, potencializar nossos dons e não nos hierarquizar, marginalizando aqueles que o padrão exigido julga ser diferente e, portanto, desprezível.

O projeto de lei que pretende criminalizar a homofobia tem o mesmo histórico político da criminalização do racismo, do machismo e outras violências (físicas e simbólicas) contra pessoas que não correspondem às exigências do “padrão”.
Não é necessário pesquisar muito para constatar que durante séculos o cristianismo, por meio de discursos e relações de poder coloniais, tem desumanizado e demonizado as mulheres e os não-brancos. Literalmente @s perseguiu emocional, intelectual, espiritual, cultural e fisicamente, queimando, torturando, dizimando, assassinando tod@s que de algum modo confrontaram suas ordens. Tudo em nome de Deus.

Em nome de Deus, mais uma vez, milhares de brasileiros que se dizem “pequenos cristos” - significado da palavra “cristão”– julgam e perseguem as pessoas não-hetereossexuais tentando impedir que o Estado criminalize a homofobia e, portanto, normatize que ninguém deve ser agredido e discriminado física e simbolicamente em razão da sua sexualidade. Esse projeto de lei visa determinar que ninguém pode ter sua humanidade violada porque não é heterossexual. Essa lei é tão justa, honrada e necessária quanto a lei que criminaliza o racismo.

Os “pequenos cristos” argumentam que a lei os impedirá de proclamar que as sexualidades divergentes da heterossexual são pecados. Isso não é verdade. Poderão continuar rotulando o que é e não é pecado tranquilamente, até porque isso só interessa aqueles que acreditam no conceito em questão. O que ninguém mais poderá fazer sem ter que enfrentar um processo penal (seja cristão, budista, pastor, padre, ateu, judeu, agnóstico...) é desumanizar, humilhar, agredir, discriminar uma pessoa porque ela não é heterossexual.

O mesmo processo e a mesma resistência ocorreu em relação aos direitos para os não-brancos e às mulheres. Muitos cristãos entendiam que a bíblia legitimava o racismo e o machismo e achavam que teriam seu direito de proclamar a “palavra de deus” cerceado. O tempo demonstrou que não é bem assim. Eu cansei de testemunhar sermões, normas e condutas machistas dentro das igrejas, pautadas pela bíblia. Na igreja em que congreguei, por exemplo, as mulheres não podem exercer nenhum dos cargos executivos e deliberativos, restam para elas apenas as funções domésticas. A pura e simples reprodução do ideário de que a mulher não é um sujeito político. Que Deus a fez para outras atribuições. Entretanto, fora daquela instituição qualquer membro dela que agir de modo a reproduzir esse ideário poderá ser judicialmente processado. E tod@s sabem disso ou, pelo menos, deveriam saber.

Por que a maioria dos brasileiros tem receio e pensa várias vezes antes de expor seu racismo, mas tem o maior orgulho de assumir sua homofobia?
Não é muito difícil concluir a resposta: Ninguém quer ser responsabilizado por um crime. 

Não existe a ingenuidade de que essa lei fará a homofobia desaparecer, assim como não fez com o racismo e com o machismo. Mas com certeza ela obrigará as pessoas a pensarem duas vezes antes de ofender, demitir, agredir e matar alguém porque não concorda com a maneira que ela se relaciona afetiva e sexualmente. E, principalmente, trará suporte jurídico e emocional para aqueles que cotidianamente são desumanizados por causa da sua sexualidade.

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PS: De modo algum esse texto visa uma crítica pessoal a quem quer quer seja, (a não ser a mim mesma). Minha argumentação é estritamente direcionada à rede de relações e discursos que se estabelece em nosso país. Muitos dos meus amig@s são cristãos e alguns se tornaram indispensáveis em minha vida, assim como meus familiares. Por fim, saliento que conheci pessoas valiosas nas igrejas que congreguei e, principalmente, no movimento universitário cristão do qual fiz parte.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

A belas e as vuvuzelas

A primeira fase da Copa do Mundo de futebol está chegando ao fim. Alguns resultados inesperados colocaram seleções com menos tradição no esporte, as chamadas “zebras”, na fase eliminatória da competição, fato que tem repercutido incessantemente na mídia.

Além da “zebra”, há outra sensação nessa Copa: A vuvuzela. Uma corneta oriunda do país que sedia os jogos, a África do Sul, que marca presença em todos os estádios, fazendo o que se propõe a fazer, ou seja, barulho, muito barulho. O ruído da vuvuzela lembra um poderoso enxame de abelhas e @s torcedor@s têm desempenhado um fôlego invejável durante toda a partida, quase sem interrupções.

No início ela foi bem recebida, goleou em várias pautas midiáticas. Entretanto, com o passar dos dias, as mesmas começaram a rejeitar e reclamar das vuvuzelas, a ponto da FIFA ter que declarar que não impedirá o uso delas, como haviam solicitado a imprensa e as comissões técnicas.


Irritantes ou não, elas fazem parte da cultura sul-africana e talvez exatamente por isso estejam incomodando tanto. Ora, quem vai a um jogo de uma competição mundial esperando silêncio? Um estádio de futebol, aqui, na Europa ou em qualquer lugar do mundo é barulhento.

Infelizmente, parece-me que não é o barulho que incomoda, mas quem faz o barulho. Por trás da rejeição à vuvuzela soa-me um coro alto e em bom som rechaçando a cultura africana, insinuando que nela falta civilidade até para torcer em uma partida de futebol. Há séculos, teorias raciais imputam aos povos negros a incapacidade de serem civilizados (Young, 2005) e tais afirmações foram e estão sendo assimiladas como verdade pelas sociedades modernas.


Para aquel@s que dirão que estou exagerando, exponho outro incomodo que esta Copa tem me provocado desde a sua estréia e que possui intensa relação com a aversão às vuvuzelas: As tradicionais matérias sobre as mulheres bonitas das torcidas.

Eu acompanhei as matérias do gênero dos principais meios televisivos e virtuais desde o início da Copa e para minha surpresa (?) quase não há mulheres negras e africanas nas seleções de beldades publicadas (Vide, por exemplo: http://placar.abril.com.br/copa-do-mundo/selecao-brasileira/galeria-de-fotos/as-mais-lindas-torcedoras-da-copa.html). Não é, no mínimo, um contra-senso a ausência dessas mulheres, tendo em vista que os jogos estão sendo realizados no continente africano? Mas sabe o que é pior? Tal fato condiz com o senso comum vigente, ou seja, a beleza negra é invisível ou irreconhecível.

A Copa do Mundo na África do Sul esta escancarando cotidianamente nosso racismo institucional, assimilado e reproduzido em nossas subjetividades, práticas e discursos. Ou seja, o racismo ensinado nas piadas ao redor da mesa de nossas casas, discipulado e pregado nas igrejas, proferido e vivenciado no ambiente escolar, repaginado e materializado nas universidades e, conseqüentemente, nos ambientes profissionais mais diversos.

Portanto, não é difícil entender por que um@ jornalista ou fotógraf@ não consegue perceber a beleza negra diante del@, quando sabemos que por toda a sua vida as instituições que @ cercaram discursaram um padrão de beleza eurocêntrico e excludente.


Resta torcer para que os olhos do mundo voltados para a África por mais de um mês consiga nos sensibilizar e incomodar a ponto de estabelecer alguns diálogos e meios de desconstruirmos os aparatos e as normas que hierarquizam e discriminam aquel@s que estão à margem do padrão estabelecido.
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Young, R. J. C. Desejo Colonial: Hibridismo em teoria, cultura e raça. SP: Perspectivas, 2005.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Dia(s) das mães...




Mais um ano começou. E, dentre tantas reafirmações, o mês de maio traz um dia inteiro dedicado às mães. Curiosa porém coerentemente, maio também é consagrado às noivas. Ou seja, um prato cheio para as campanhas publicitárias enquadrarem o perfil e o destino daquele ser denominado “mulher”.
Hoje, durante uma caminhada pela rua, observei que todos os outdoors sugeriam um presente para minha mãe. Ou melhor, para o que el@s pretendem impor à imagem dela. Um deles me ordenou: “Dê um presente para sua mãe desfilar!”, com uma mulher alta, magérrima e branca caminhando elegantemente com uma bolsa de quase mil reais a tiracolo (!). Outra campanha dizia que as mães são o feminino do amor. Logo pensei, “Uau, nem tamanha abstração humana – o amor – escapou das normas binárias do feminino e masculino!”.
Mas uma frase saltou-me aos olhos: “De todos os direitos da mulher, o maior é ser mãe!”. Fiquei chocada. Meu ritmo da caminhada diminuiu drasticamente. Esta sentença, impressa em uma área de 27m², aparentemente banal, e até delicada para alguns, reflete o quão distante estamos de uma sociedade que percebe, pondera e corrige as suas hierarquias materiais e simbólicas. Imediatamente vieram-me à mente as lutas por direitos de vários grupos que histórica e socialmente foram formatados como inferiores em contraste com seus “opostos”, ditos, superiores.
Fiquem tranquil@s, pois não se trata de uma apologia anti-materna às vésperas do dia das mães. Ao contrário, desejo de modo sincero e excêntrico homenagear tais pessoas que heroicamente, embora com certa cumplicidade resignada, tem cumprido um papel social subalterno.

Mas, oras, já passamos do tempo de questionar a quem serve esta relação obrigatória e naturalizada (portanto, negligenciada) da mulher com a maternidade, a família, a feminilidade, a fragilidade, etc.

As pessoas são muito mais complexas e criativas do que os rótulos aos quais são forçosamente submetidas.
Não é curioso e assustador que nós, seres humanos, ganhamos, ao nascer, nomes e objetos coloridos que determinaram a maneira como enxergamos, classificamos e desejamos o mundo ao nosso redor? Não é mais preocupante ainda que inúmeras pessoas desejem desesperadamente casar simplesmente para cumprir um script social (o qual atualmente inclui postar as fotos da festa no Orkut) sem ao menos se perguntarem o porquê desse ritual e dessa formalidade?
Nossa sociedade nos exige calcular o mundo em rótulos que se opõem: Mãe e pai. Homem e mulher. Feminino e masculino. Heterossexualidade e homossexualidade. Branco e não-branco. Cristão e pagão. Normal e desviado. Doente e sadio. Bonito e feio. E assim infinitamente...
A crueldade desse catálogo de binários está na sua intrínseca dominação de um pólo sobre o outro. Não há equilíbrio, pelo contrário, o privilégio, a força, a visibilidade de um lado é em detrimento do outro, que se naturaliza enquanto subalterno, invisível, fraco, etc.
Enfim, de qualquer forma, daqui uma semana, aquelas pessoas reconhecidas como mães serão presenteadas, almoços saborosos serão servidos e mais uma dúzia de fotos serão postadas na rede virtual.
Parece que é assim mesmo... O mundo gira, gira e gira... E no final das contas todo dia é dia da mãe (e do pai, obviamente).



quinta-feira, 25 de março de 2010

Para que serve o pedido de perdão do Papa?



O Papa pediu perdão de novo.

Desta vez por causa dos “abusos sexuais” cometidos pelos sacerdotes católicos. Tenho me perguntado por que se tornou um fenômeno o ato dele pedir perdão. A mídia ressoa suas palavras como se todo o dano causado fosse equacionado milagrosamente. É obvio que isso não acontece, entretanto suas palavras “mágicas” criam uma onda de conforto suficiente para inviabilizar qualquer reparação efetiva por parte da instituição católica, personificada pelo mesmo.

A primeira vez que um Papa pediu clemência pela igreja foi em 2000, ano do jubileu milenar, quando o papado era exercido pelo carismático João Paulo II. Na ocasião, numa única tacada, a igreja se absolveu 1) das culpas do passado, 2) do emprego de “métodos não evangélicos” no serviço da fé, 3) da separação dos cristãos, 4) das perseguições contra os judeus, 5) do desrespeito aos direitos dos povos e de suas respectivas culturas e religiões, 6) dos atentados contra a dignidade da mulher e, 7) das violações dos direitos humanos.

Desde então, pedir perdão tornou-se uma prática papal. Já houve pedido de remissão ao povo chinês pela atuação dos missionários católicos e aos cristãos ortodoxos pela intolerância praticada para com eles. Da mesma forma a igreja confessou sua “mea culpa” em relação às guerras e à recente escravidão colonial.

Uau! Pensar que eu pedia perdão a Deus por comer ou dormir demais...

Brincadeiras a parte, não é muito difícil perceber que a igreja cristã co-protagoniza a produção e a gestão de poder e conhecimento do mundo ocidental, principalmente. (O oriente também se pensarmos que o mesmo foi construído a partir e pelo ocidente como nos explica Said em seu livro “Orientalismo”).

Os valores cristãos estão diluidamente presentes em todas as nossas instituições sociais e mesmo que você não seja cristão sua vida, suas ações, suas relações são intrinsecamente influenciadas por eles. (Weber, 2002; Nietzsche, 2002; Foucault, 1998)


Esse fenômeno é preocupante porque o cristianismo é doutrinário e dogmático, portanto não há diálogo ou dialética, há apenas um discipulado unilateral. Infelizmente esta característica exclusivista da religião cristã tem sido a causa de inúmeras discriminações, marginalizações e desumanizações de grupos que desviam das normas morais por ela estipuladas e legitimadas pelas ciências biológicas e sociais hegemônicas.

Arriscaria dizer que todos os pecados da igreja cristã citados pelos papas oriundam deste dispositivo exclusivista. Portanto o reconhecimento da culpa não deve se resumir a si mesmo, mas re-significar seus discursos e suas práticas, por meio de uma contextualização sincera e séria de seus princípios. Caso contrário, volto a perguntar já sabendo a resposta. Para que servem os pedidos de perdão do Papa? Para quase nada.



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FOUCAULT, M. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de janeiro: Graal, 1988
NIETZSCHE, F. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 2002
SAID, E. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1990
WEBER,M A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo, Ed. Martin Claret, 2002.