quinta-feira, 25 de março de 2010

Para que serve o pedido de perdão do Papa?



O Papa pediu perdão de novo.

Desta vez por causa dos “abusos sexuais” cometidos pelos sacerdotes católicos. Tenho me perguntado por que se tornou um fenômeno o ato dele pedir perdão. A mídia ressoa suas palavras como se todo o dano causado fosse equacionado milagrosamente. É obvio que isso não acontece, entretanto suas palavras “mágicas” criam uma onda de conforto suficiente para inviabilizar qualquer reparação efetiva por parte da instituição católica, personificada pelo mesmo.

A primeira vez que um Papa pediu clemência pela igreja foi em 2000, ano do jubileu milenar, quando o papado era exercido pelo carismático João Paulo II. Na ocasião, numa única tacada, a igreja se absolveu 1) das culpas do passado, 2) do emprego de “métodos não evangélicos” no serviço da fé, 3) da separação dos cristãos, 4) das perseguições contra os judeus, 5) do desrespeito aos direitos dos povos e de suas respectivas culturas e religiões, 6) dos atentados contra a dignidade da mulher e, 7) das violações dos direitos humanos.

Desde então, pedir perdão tornou-se uma prática papal. Já houve pedido de remissão ao povo chinês pela atuação dos missionários católicos e aos cristãos ortodoxos pela intolerância praticada para com eles. Da mesma forma a igreja confessou sua “mea culpa” em relação às guerras e à recente escravidão colonial.

Uau! Pensar que eu pedia perdão a Deus por comer ou dormir demais...

Brincadeiras a parte, não é muito difícil perceber que a igreja cristã co-protagoniza a produção e a gestão de poder e conhecimento do mundo ocidental, principalmente. (O oriente também se pensarmos que o mesmo foi construído a partir e pelo ocidente como nos explica Said em seu livro “Orientalismo”).

Os valores cristãos estão diluidamente presentes em todas as nossas instituições sociais e mesmo que você não seja cristão sua vida, suas ações, suas relações são intrinsecamente influenciadas por eles. (Weber, 2002; Nietzsche, 2002; Foucault, 1998)


Esse fenômeno é preocupante porque o cristianismo é doutrinário e dogmático, portanto não há diálogo ou dialética, há apenas um discipulado unilateral. Infelizmente esta característica exclusivista da religião cristã tem sido a causa de inúmeras discriminações, marginalizações e desumanizações de grupos que desviam das normas morais por ela estipuladas e legitimadas pelas ciências biológicas e sociais hegemônicas.

Arriscaria dizer que todos os pecados da igreja cristã citados pelos papas oriundam deste dispositivo exclusivista. Portanto o reconhecimento da culpa não deve se resumir a si mesmo, mas re-significar seus discursos e suas práticas, por meio de uma contextualização sincera e séria de seus princípios. Caso contrário, volto a perguntar já sabendo a resposta. Para que servem os pedidos de perdão do Papa? Para quase nada.



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FOUCAULT, M. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de janeiro: Graal, 1988
NIETZSCHE, F. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 2002
SAID, E. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1990
WEBER,M A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo, Ed. Martin Claret, 2002.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Quem escreve a nossa história?


É certo que depois da eleição de Barack Hussein Obama nos EUA o ano de 2008 entrará para história como um importante marco da luta anti-racista mundial. E independentemente das avaliações que seu mandato receberá, o fato de um homem negro conquistar democraticamente o maior cargo político da maior potência global, no mínimo, incomodará as relações e as estruturas de poder de todas as sociedades pós-coloniais. Isto porque todas elas passaram por um profundo processo de racialização[1], o qual tem alocado determinado padrão étnico-racial (padrão eurocentrado: homem, branco, cristão, heterossexual, poliglota, etc.) em posições de poder e prestígio, ao mesmo tempo em que tem marginalizado todos os outros padrões em situações de subalternidade e precariedade civil.

A vitória de Obama não se restringe e não se restringirá ao território norte-americano, mas sem dúvida devemos reconhecer que ela é fruto da recente história daquele povo. Uma história de luta pelos direitos civis e de políticas de ação afirmativa. E por que estas características são tão relevantes? Porque demonstram que a promessa das revoluções modernas de que as pessoas seriam tratadas igualmente como indivíduos e não mais como pertencentes a uma aristocracia, plebe, estamento, casta, etc. não vigorou, pelo contrário, as pessoas continuam sendo discriminadas, negativa ou positivamente, por incorporarem determinadas diferenças socialmente construídas e reproduzidas. [2]

Poucos percebem que a ação afirmativa surgiu como uma possibilidade política para equacionar este processo discriminatório, o qual impede que determinadas pessoas acessem locais e cargos de poder, em razão de estarem alocadas em posições e/ou grupos concebidos socialmente como inferiores. A ação afirmativa é uma atitude política que resulta da compreensão analítica de que o acesso ao poder e a completa cidadania dos indivíduos foi cerceada da maioria deles, exatamente porque na prática estes não são reconhecidos e tratados como tais. Ou seja, os processos simbólicos resultantes do racismo, do sexismo, da homofobia, etc. despiram a individualidade daqueles enquadrados como desviantes do padrão eurocentrado e consolidaram-nos coletivamente.

Diante disso podemos entender porque o foco das políticas afirmativas - os grupos e não os indivíduos - é acusado de paradoxal. Entretanto, não é a ação afirmativa que é paradoxal, mas a própria sociedade que trata convenientemente alguns como indivíduos e outros como coletivos marginalizados! Ignorar este paradoxo, insistindo apenas em políticas nomeadas universalistas, porque estas respeitariam a isonomia dos indivíduos, sem dúvida, significaria persistir em paradigmas políticos que jamais alcançarão seus objetivos idealizados e prometidos, ou seja, o tratamento igual entre os diferentes. [3]

Embora os EUA sejam referência no que tange a ação afirmativa e aos seus resultados, não correspondem a primeira e nem a única experiência mundial. Diversos países como a Índia, Malásia, África do Sul, Gana, Guiné, Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, México, o próprio Brasil, entre outros, adotaram e adotam há décadas políticas de ação afirmativa com diferentes critérios (casta, deficiência, descendência, etnia, física, gênero, nacionalidade, raça, etc).

E para a surpresa daqueles que pensam que as polemizadas cotas nas universidades públicas são as nossas únicas, recentes e “americanizadas” medidas de ação afirmativa, saibam que temos um histórico razoavelmente vasto e diversificado dessas políticas: a Lei dos Dois Terços (5.452/1943) do governo Getúlio Vargas, a Lei do Boi (5465/1968) que reservou vagas nas instituições de ensino - médio e superior - agrícolas para agricultores e filhos destes, a Lei (8.112/1990) que prescreve cotas para portadores de deficiências físicas no serviço público civil da União e Lei 9.504/1997 que preconiza cotas para mulheres nas candidaturas partidárias, entre outras. [4]

Diante da revelação de que existiram e existem ações afirmativas no Brasil focadas em nacionalidade, profissão, descendência, deficiência, gênero, etc. e que estas pouco ou nada foram atacadas, polemizadas e rechaçadas pela sociedade, resta-nos uma intrigante inquietação: Por que somente quando se propôs utilizar ação afirmativa com o critério racial houve tanta polêmica e oposição articulada advindas de diferentes meios da sociedade detentores de poder?[5] Por que políticas que garantem o acesso de negros e negras nas universidades públicas, local onde se produz e negocia conhecimento e poder, recebem tanta resistência de acadêmicos e acadêmicas? Por que a grande mídia repudia tais medidas e ainda as acusam de racialistas como se a sociedade assim já não o fosse? A quem interessa esta oposição à ação afirmativa com critério racial que com menos de dez anos de execução já possibilitou dezenas de milhares de estudantes universitários negros e negras em mais de sessenta instituições de ensino superior público?

Estas são perguntas que todos e todas devem se fazer antes de se posicionarem contrariamente às ações afirmativas. Pois estas correspondem a iniciativas que almejam atuar em sociedades injustas e discriminatórias, como a nossa, transformando-as em sociedades onde não exista apenas um padrão de pessoas que são valorizadas, que detêm o poder, que produzem conhecimento e que determinam a história de todos.

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SILVERIO, V. R. Negros em movimento: a construção da autonomia pela afirmação dos direitos. In: Bernardino, J. (Org.). Levando Raça a Sério. 1ª ed. Rio de Janeiro: DPA Editores, 2004, v. 1, p. 39-69.
MISKOLCI, R. Do desvio às diferenças. Teoria & Pesquisa, São Carlos, V.1, N. 47, pp.9 – 42, 2005.
SCOTT, J. W. O enigma da igualdade. Estudos Feministas, Florianópolis, v.13 (1), pp.11-30, jan/abr 2005.
SILVA Jr, H. Ação Afirmativa para negros(as) nas universidades: a concretização do princípio constitucional da igualdade. In:SILVA, P. B. G. e SILVÉRIO, V.R. (orgs.) Educação e ações afirmativas: entre a injustiça simbólica e a injustiça econômica. Inep, 2003.
BERNARDINO-COSTA, Joaze. Levando a raça a sério: ação afirmativa e correto reconhecimento. In: Joaze Bernardino; Daniela Galdino. (Org.). Levando a raça a sério: ação afirmativa e universidade. 1 ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2004, v. 1, p. 15-38.