quinta-feira, 24 de junho de 2010

A belas e as vuvuzelas

A primeira fase da Copa do Mundo de futebol está chegando ao fim. Alguns resultados inesperados colocaram seleções com menos tradição no esporte, as chamadas “zebras”, na fase eliminatória da competição, fato que tem repercutido incessantemente na mídia.

Além da “zebra”, há outra sensação nessa Copa: A vuvuzela. Uma corneta oriunda do país que sedia os jogos, a África do Sul, que marca presença em todos os estádios, fazendo o que se propõe a fazer, ou seja, barulho, muito barulho. O ruído da vuvuzela lembra um poderoso enxame de abelhas e @s torcedor@s têm desempenhado um fôlego invejável durante toda a partida, quase sem interrupções.

No início ela foi bem recebida, goleou em várias pautas midiáticas. Entretanto, com o passar dos dias, as mesmas começaram a rejeitar e reclamar das vuvuzelas, a ponto da FIFA ter que declarar que não impedirá o uso delas, como haviam solicitado a imprensa e as comissões técnicas.


Irritantes ou não, elas fazem parte da cultura sul-africana e talvez exatamente por isso estejam incomodando tanto. Ora, quem vai a um jogo de uma competição mundial esperando silêncio? Um estádio de futebol, aqui, na Europa ou em qualquer lugar do mundo é barulhento.

Infelizmente, parece-me que não é o barulho que incomoda, mas quem faz o barulho. Por trás da rejeição à vuvuzela soa-me um coro alto e em bom som rechaçando a cultura africana, insinuando que nela falta civilidade até para torcer em uma partida de futebol. Há séculos, teorias raciais imputam aos povos negros a incapacidade de serem civilizados (Young, 2005) e tais afirmações foram e estão sendo assimiladas como verdade pelas sociedades modernas.


Para aquel@s que dirão que estou exagerando, exponho outro incomodo que esta Copa tem me provocado desde a sua estréia e que possui intensa relação com a aversão às vuvuzelas: As tradicionais matérias sobre as mulheres bonitas das torcidas.

Eu acompanhei as matérias do gênero dos principais meios televisivos e virtuais desde o início da Copa e para minha surpresa (?) quase não há mulheres negras e africanas nas seleções de beldades publicadas (Vide, por exemplo: http://placar.abril.com.br/copa-do-mundo/selecao-brasileira/galeria-de-fotos/as-mais-lindas-torcedoras-da-copa.html). Não é, no mínimo, um contra-senso a ausência dessas mulheres, tendo em vista que os jogos estão sendo realizados no continente africano? Mas sabe o que é pior? Tal fato condiz com o senso comum vigente, ou seja, a beleza negra é invisível ou irreconhecível.

A Copa do Mundo na África do Sul esta escancarando cotidianamente nosso racismo institucional, assimilado e reproduzido em nossas subjetividades, práticas e discursos. Ou seja, o racismo ensinado nas piadas ao redor da mesa de nossas casas, discipulado e pregado nas igrejas, proferido e vivenciado no ambiente escolar, repaginado e materializado nas universidades e, conseqüentemente, nos ambientes profissionais mais diversos.

Portanto, não é difícil entender por que um@ jornalista ou fotógraf@ não consegue perceber a beleza negra diante del@, quando sabemos que por toda a sua vida as instituições que @ cercaram discursaram um padrão de beleza eurocêntrico e excludente.


Resta torcer para que os olhos do mundo voltados para a África por mais de um mês consiga nos sensibilizar e incomodar a ponto de estabelecer alguns diálogos e meios de desconstruirmos os aparatos e as normas que hierarquizam e discriminam aquel@s que estão à margem do padrão estabelecido.
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Young, R. J. C. Desejo Colonial: Hibridismo em teoria, cultura e raça. SP: Perspectivas, 2005.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Dia(s) das mães...




Mais um ano começou. E, dentre tantas reafirmações, o mês de maio traz um dia inteiro dedicado às mães. Curiosa porém coerentemente, maio também é consagrado às noivas. Ou seja, um prato cheio para as campanhas publicitárias enquadrarem o perfil e o destino daquele ser denominado “mulher”.
Hoje, durante uma caminhada pela rua, observei que todos os outdoors sugeriam um presente para minha mãe. Ou melhor, para o que el@s pretendem impor à imagem dela. Um deles me ordenou: “Dê um presente para sua mãe desfilar!”, com uma mulher alta, magérrima e branca caminhando elegantemente com uma bolsa de quase mil reais a tiracolo (!). Outra campanha dizia que as mães são o feminino do amor. Logo pensei, “Uau, nem tamanha abstração humana – o amor – escapou das normas binárias do feminino e masculino!”.
Mas uma frase saltou-me aos olhos: “De todos os direitos da mulher, o maior é ser mãe!”. Fiquei chocada. Meu ritmo da caminhada diminuiu drasticamente. Esta sentença, impressa em uma área de 27m², aparentemente banal, e até delicada para alguns, reflete o quão distante estamos de uma sociedade que percebe, pondera e corrige as suas hierarquias materiais e simbólicas. Imediatamente vieram-me à mente as lutas por direitos de vários grupos que histórica e socialmente foram formatados como inferiores em contraste com seus “opostos”, ditos, superiores.
Fiquem tranquil@s, pois não se trata de uma apologia anti-materna às vésperas do dia das mães. Ao contrário, desejo de modo sincero e excêntrico homenagear tais pessoas que heroicamente, embora com certa cumplicidade resignada, tem cumprido um papel social subalterno.

Mas, oras, já passamos do tempo de questionar a quem serve esta relação obrigatória e naturalizada (portanto, negligenciada) da mulher com a maternidade, a família, a feminilidade, a fragilidade, etc.

As pessoas são muito mais complexas e criativas do que os rótulos aos quais são forçosamente submetidas.
Não é curioso e assustador que nós, seres humanos, ganhamos, ao nascer, nomes e objetos coloridos que determinaram a maneira como enxergamos, classificamos e desejamos o mundo ao nosso redor? Não é mais preocupante ainda que inúmeras pessoas desejem desesperadamente casar simplesmente para cumprir um script social (o qual atualmente inclui postar as fotos da festa no Orkut) sem ao menos se perguntarem o porquê desse ritual e dessa formalidade?
Nossa sociedade nos exige calcular o mundo em rótulos que se opõem: Mãe e pai. Homem e mulher. Feminino e masculino. Heterossexualidade e homossexualidade. Branco e não-branco. Cristão e pagão. Normal e desviado. Doente e sadio. Bonito e feio. E assim infinitamente...
A crueldade desse catálogo de binários está na sua intrínseca dominação de um pólo sobre o outro. Não há equilíbrio, pelo contrário, o privilégio, a força, a visibilidade de um lado é em detrimento do outro, que se naturaliza enquanto subalterno, invisível, fraco, etc.
Enfim, de qualquer forma, daqui uma semana, aquelas pessoas reconhecidas como mães serão presenteadas, almoços saborosos serão servidos e mais uma dúzia de fotos serão postadas na rede virtual.
Parece que é assim mesmo... O mundo gira, gira e gira... E no final das contas todo dia é dia da mãe (e do pai, obviamente).



quinta-feira, 25 de março de 2010

Para que serve o pedido de perdão do Papa?



O Papa pediu perdão de novo.

Desta vez por causa dos “abusos sexuais” cometidos pelos sacerdotes católicos. Tenho me perguntado por que se tornou um fenômeno o ato dele pedir perdão. A mídia ressoa suas palavras como se todo o dano causado fosse equacionado milagrosamente. É obvio que isso não acontece, entretanto suas palavras “mágicas” criam uma onda de conforto suficiente para inviabilizar qualquer reparação efetiva por parte da instituição católica, personificada pelo mesmo.

A primeira vez que um Papa pediu clemência pela igreja foi em 2000, ano do jubileu milenar, quando o papado era exercido pelo carismático João Paulo II. Na ocasião, numa única tacada, a igreja se absolveu 1) das culpas do passado, 2) do emprego de “métodos não evangélicos” no serviço da fé, 3) da separação dos cristãos, 4) das perseguições contra os judeus, 5) do desrespeito aos direitos dos povos e de suas respectivas culturas e religiões, 6) dos atentados contra a dignidade da mulher e, 7) das violações dos direitos humanos.

Desde então, pedir perdão tornou-se uma prática papal. Já houve pedido de remissão ao povo chinês pela atuação dos missionários católicos e aos cristãos ortodoxos pela intolerância praticada para com eles. Da mesma forma a igreja confessou sua “mea culpa” em relação às guerras e à recente escravidão colonial.

Uau! Pensar que eu pedia perdão a Deus por comer ou dormir demais...

Brincadeiras a parte, não é muito difícil perceber que a igreja cristã co-protagoniza a produção e a gestão de poder e conhecimento do mundo ocidental, principalmente. (O oriente também se pensarmos que o mesmo foi construído a partir e pelo ocidente como nos explica Said em seu livro “Orientalismo”).

Os valores cristãos estão diluidamente presentes em todas as nossas instituições sociais e mesmo que você não seja cristão sua vida, suas ações, suas relações são intrinsecamente influenciadas por eles. (Weber, 2002; Nietzsche, 2002; Foucault, 1998)


Esse fenômeno é preocupante porque o cristianismo é doutrinário e dogmático, portanto não há diálogo ou dialética, há apenas um discipulado unilateral. Infelizmente esta característica exclusivista da religião cristã tem sido a causa de inúmeras discriminações, marginalizações e desumanizações de grupos que desviam das normas morais por ela estipuladas e legitimadas pelas ciências biológicas e sociais hegemônicas.

Arriscaria dizer que todos os pecados da igreja cristã citados pelos papas oriundam deste dispositivo exclusivista. Portanto o reconhecimento da culpa não deve se resumir a si mesmo, mas re-significar seus discursos e suas práticas, por meio de uma contextualização sincera e séria de seus princípios. Caso contrário, volto a perguntar já sabendo a resposta. Para que servem os pedidos de perdão do Papa? Para quase nada.



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FOUCAULT, M. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de janeiro: Graal, 1988
NIETZSCHE, F. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 2002
SAID, E. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1990
WEBER,M A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo, Ed. Martin Claret, 2002.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Quem escreve a nossa história?


É certo que depois da eleição de Barack Hussein Obama nos EUA o ano de 2008 entrará para história como um importante marco da luta anti-racista mundial. E independentemente das avaliações que seu mandato receberá, o fato de um homem negro conquistar democraticamente o maior cargo político da maior potência global, no mínimo, incomodará as relações e as estruturas de poder de todas as sociedades pós-coloniais. Isto porque todas elas passaram por um profundo processo de racialização[1], o qual tem alocado determinado padrão étnico-racial (padrão eurocentrado: homem, branco, cristão, heterossexual, poliglota, etc.) em posições de poder e prestígio, ao mesmo tempo em que tem marginalizado todos os outros padrões em situações de subalternidade e precariedade civil.

A vitória de Obama não se restringe e não se restringirá ao território norte-americano, mas sem dúvida devemos reconhecer que ela é fruto da recente história daquele povo. Uma história de luta pelos direitos civis e de políticas de ação afirmativa. E por que estas características são tão relevantes? Porque demonstram que a promessa das revoluções modernas de que as pessoas seriam tratadas igualmente como indivíduos e não mais como pertencentes a uma aristocracia, plebe, estamento, casta, etc. não vigorou, pelo contrário, as pessoas continuam sendo discriminadas, negativa ou positivamente, por incorporarem determinadas diferenças socialmente construídas e reproduzidas. [2]

Poucos percebem que a ação afirmativa surgiu como uma possibilidade política para equacionar este processo discriminatório, o qual impede que determinadas pessoas acessem locais e cargos de poder, em razão de estarem alocadas em posições e/ou grupos concebidos socialmente como inferiores. A ação afirmativa é uma atitude política que resulta da compreensão analítica de que o acesso ao poder e a completa cidadania dos indivíduos foi cerceada da maioria deles, exatamente porque na prática estes não são reconhecidos e tratados como tais. Ou seja, os processos simbólicos resultantes do racismo, do sexismo, da homofobia, etc. despiram a individualidade daqueles enquadrados como desviantes do padrão eurocentrado e consolidaram-nos coletivamente.

Diante disso podemos entender porque o foco das políticas afirmativas - os grupos e não os indivíduos - é acusado de paradoxal. Entretanto, não é a ação afirmativa que é paradoxal, mas a própria sociedade que trata convenientemente alguns como indivíduos e outros como coletivos marginalizados! Ignorar este paradoxo, insistindo apenas em políticas nomeadas universalistas, porque estas respeitariam a isonomia dos indivíduos, sem dúvida, significaria persistir em paradigmas políticos que jamais alcançarão seus objetivos idealizados e prometidos, ou seja, o tratamento igual entre os diferentes. [3]

Embora os EUA sejam referência no que tange a ação afirmativa e aos seus resultados, não correspondem a primeira e nem a única experiência mundial. Diversos países como a Índia, Malásia, África do Sul, Gana, Guiné, Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, México, o próprio Brasil, entre outros, adotaram e adotam há décadas políticas de ação afirmativa com diferentes critérios (casta, deficiência, descendência, etnia, física, gênero, nacionalidade, raça, etc).

E para a surpresa daqueles que pensam que as polemizadas cotas nas universidades públicas são as nossas únicas, recentes e “americanizadas” medidas de ação afirmativa, saibam que temos um histórico razoavelmente vasto e diversificado dessas políticas: a Lei dos Dois Terços (5.452/1943) do governo Getúlio Vargas, a Lei do Boi (5465/1968) que reservou vagas nas instituições de ensino - médio e superior - agrícolas para agricultores e filhos destes, a Lei (8.112/1990) que prescreve cotas para portadores de deficiências físicas no serviço público civil da União e Lei 9.504/1997 que preconiza cotas para mulheres nas candidaturas partidárias, entre outras. [4]

Diante da revelação de que existiram e existem ações afirmativas no Brasil focadas em nacionalidade, profissão, descendência, deficiência, gênero, etc. e que estas pouco ou nada foram atacadas, polemizadas e rechaçadas pela sociedade, resta-nos uma intrigante inquietação: Por que somente quando se propôs utilizar ação afirmativa com o critério racial houve tanta polêmica e oposição articulada advindas de diferentes meios da sociedade detentores de poder?[5] Por que políticas que garantem o acesso de negros e negras nas universidades públicas, local onde se produz e negocia conhecimento e poder, recebem tanta resistência de acadêmicos e acadêmicas? Por que a grande mídia repudia tais medidas e ainda as acusam de racialistas como se a sociedade assim já não o fosse? A quem interessa esta oposição à ação afirmativa com critério racial que com menos de dez anos de execução já possibilitou dezenas de milhares de estudantes universitários negros e negras em mais de sessenta instituições de ensino superior público?

Estas são perguntas que todos e todas devem se fazer antes de se posicionarem contrariamente às ações afirmativas. Pois estas correspondem a iniciativas que almejam atuar em sociedades injustas e discriminatórias, como a nossa, transformando-as em sociedades onde não exista apenas um padrão de pessoas que são valorizadas, que detêm o poder, que produzem conhecimento e que determinam a história de todos.

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SILVERIO, V. R. Negros em movimento: a construção da autonomia pela afirmação dos direitos. In: Bernardino, J. (Org.). Levando Raça a Sério. 1ª ed. Rio de Janeiro: DPA Editores, 2004, v. 1, p. 39-69.
MISKOLCI, R. Do desvio às diferenças. Teoria & Pesquisa, São Carlos, V.1, N. 47, pp.9 – 42, 2005.
SCOTT, J. W. O enigma da igualdade. Estudos Feministas, Florianópolis, v.13 (1), pp.11-30, jan/abr 2005.
SILVA Jr, H. Ação Afirmativa para negros(as) nas universidades: a concretização do princípio constitucional da igualdade. In:SILVA, P. B. G. e SILVÉRIO, V.R. (orgs.) Educação e ações afirmativas: entre a injustiça simbólica e a injustiça econômica. Inep, 2003.
BERNARDINO-COSTA, Joaze. Levando a raça a sério: ação afirmativa e correto reconhecimento. In: Joaze Bernardino; Daniela Galdino. (Org.). Levando a raça a sério: ação afirmativa e universidade. 1 ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2004, v. 1, p. 15-38.