segunda-feira, 3 de maio de 2010

Dia(s) das mães...




Mais um ano começou. E, dentre tantas reafirmações, o mês de maio traz um dia inteiro dedicado às mães. Curiosa porém coerentemente, maio também é consagrado às noivas. Ou seja, um prato cheio para as campanhas publicitárias enquadrarem o perfil e o destino daquele ser denominado “mulher”.
Hoje, durante uma caminhada pela rua, observei que todos os outdoors sugeriam um presente para minha mãe. Ou melhor, para o que el@s pretendem impor à imagem dela. Um deles me ordenou: “Dê um presente para sua mãe desfilar!”, com uma mulher alta, magérrima e branca caminhando elegantemente com uma bolsa de quase mil reais a tiracolo (!). Outra campanha dizia que as mães são o feminino do amor. Logo pensei, “Uau, nem tamanha abstração humana – o amor – escapou das normas binárias do feminino e masculino!”.
Mas uma frase saltou-me aos olhos: “De todos os direitos da mulher, o maior é ser mãe!”. Fiquei chocada. Meu ritmo da caminhada diminuiu drasticamente. Esta sentença, impressa em uma área de 27m², aparentemente banal, e até delicada para alguns, reflete o quão distante estamos de uma sociedade que percebe, pondera e corrige as suas hierarquias materiais e simbólicas. Imediatamente vieram-me à mente as lutas por direitos de vários grupos que histórica e socialmente foram formatados como inferiores em contraste com seus “opostos”, ditos, superiores.
Fiquem tranquil@s, pois não se trata de uma apologia anti-materna às vésperas do dia das mães. Ao contrário, desejo de modo sincero e excêntrico homenagear tais pessoas que heroicamente, embora com certa cumplicidade resignada, tem cumprido um papel social subalterno.

Mas, oras, já passamos do tempo de questionar a quem serve esta relação obrigatória e naturalizada (portanto, negligenciada) da mulher com a maternidade, a família, a feminilidade, a fragilidade, etc.

As pessoas são muito mais complexas e criativas do que os rótulos aos quais são forçosamente submetidas.
Não é curioso e assustador que nós, seres humanos, ganhamos, ao nascer, nomes e objetos coloridos que determinaram a maneira como enxergamos, classificamos e desejamos o mundo ao nosso redor? Não é mais preocupante ainda que inúmeras pessoas desejem desesperadamente casar simplesmente para cumprir um script social (o qual atualmente inclui postar as fotos da festa no Orkut) sem ao menos se perguntarem o porquê desse ritual e dessa formalidade?
Nossa sociedade nos exige calcular o mundo em rótulos que se opõem: Mãe e pai. Homem e mulher. Feminino e masculino. Heterossexualidade e homossexualidade. Branco e não-branco. Cristão e pagão. Normal e desviado. Doente e sadio. Bonito e feio. E assim infinitamente...
A crueldade desse catálogo de binários está na sua intrínseca dominação de um pólo sobre o outro. Não há equilíbrio, pelo contrário, o privilégio, a força, a visibilidade de um lado é em detrimento do outro, que se naturaliza enquanto subalterno, invisível, fraco, etc.
Enfim, de qualquer forma, daqui uma semana, aquelas pessoas reconhecidas como mães serão presenteadas, almoços saborosos serão servidos e mais uma dúzia de fotos serão postadas na rede virtual.
Parece que é assim mesmo... O mundo gira, gira e gira... E no final das contas todo dia é dia da mãe (e do pai, obviamente).



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