O Ministro
Joaquim B. Barbosa Gomes tem, de um modo geral, empolgado positivamente a
população brasileira com sua postura no julgamento do “mensalão”. O que é muito
merecido, pois revelou um relatório/voto sério e idôneo oriundo de um trabalho
árduo e, sem dúvida, sob muita pressão.
Ontem ele foi unanimemente eleito
Presidente do STF. Um dos cargos mais altos e importantes de nosso país. Fato
que me emocionou fortemente, assim como grande parcela da sociedade.
Porém, hoje, deparei-me com
inúmeras provocações afirmando que o mesmo é negro e não precisou de cotas para
chegar onde chegou. (Parem tudo!)
Tal incoerência (O Ministro é um dos maiores defensores das referidas
políticas na atualidade) que se pretende irônica, apenas confirma
minha tese: As ações afirmativas para população não-branca é o maior "dedo
na nossa ferida". Não há tema, discussão e política que incomodem e mexam
mais com nossas estruturas e lógicas coloniais do que as cotas para população
negra e indígena.
Mesmo diante de um momento e de
uma história de vida que congregam politicamente a população, as cotas aparecem
como discórdia.
As mesmas já são uma realidade
nas universidades brasileiras há uma década. O projeto de Lei que as determina
nas instituições de ensino superior (IES) federais foi aprovado nas duas casas
legislativas, após anos de debate e intensa oposição midiática. A presidente
Dilma fez questão que a referida lei fosse sancionada em uma sessão solene,
devido a importância da mesma. O STF declarou as mesmas constitucionais e
absolutamente necessárias. Ou seja, todo o Estado brasileiro confirmou a constitucionalidade,
importância e necessidade das ações afirmativas para populações negras e
indígenas. Porém, essas continuam sendo atacadas incessantemente por uma
população ludibriada pelo falso ideário de que não somos tão racistas
assim.
As ações afirmativas para
população não-branca são as únicas políticas que além de promoverem equidade
racial, combaterem os discursos e práticas racistas, também provocam o incomodo
absolutamente imprescindível para a percepção de que ainda somos uma sociedade
subjetivamente colonizada. Incômodo capaz de perdurar mais de uma década,
enfrentando gigantes políticos, acadêmicos e midiáticos e ainda sim perseverar,
transformar e melhorar a nossa sociedade.
Os espaços que produzem e
disputam poder e conhecimento não são mais os mesmos. As pessoas que lá
circulam e atuam não possuem mais a mesma cor, história e origem, o que mesmo
inconscientemente tem provocado mudanças essenciais. Hoje temos em nossas IES inúmeros estudantes
de arquitetura e engenharia civil que
cresceram em CDHU’s e afins, estudantes de medicina que sempre dependeram dos
sistemas públicos de saúde, estudantes
de direito que foram constantemente abordados por policiais simplesmente porque
não possuem um perfil de “gente de bem”, estudantes de química que cresceram
lendo em rótulos de xampu e condicionador que seus cabelos precisam ser
domados, estudantes de administração que sentiram na pele a discriminação de um
processo seletivo que prioriza o que é socialmente entendido como “boa
aparência”. Enfim, a experiência dessas vidas marcadas pela crueldade da
diferença hierarquizada pode, se quisermos, mudar a maneira como enxergamos o
mundo e produzimos conhecimento sobre ele.
Para isso, precisamos seguir e não
mais perder tempo com a discussão sobre ser ou não favorável as cotas. Elas já
são uma realidade, queira você ou não. Esse debate é a última estratégia que
restou para as elites conservadoras de nosso país. Agora, a discussão é e deve
ser qualitativa. Qual tipo de transformação queremos que as ações afirmativas provoquem?
Estamos em momento crucial, no qual podemos fazer dessas políticas um meio de
alterar nossa subjetividade colonizada, a começar pela reforma de todo
currículo educacional, do ensino básico à pós graduação, desconstruindo nossa
epistemologia eurocêntrica, portanto, racista, xenófoba, machista, homofóbica,
entre outras discriminações correlatas.
Acredite, as cotas não te
incomodam à toa. Incomodam porque te obrigam a pensar. E pensar dói.