sábado, 20 de outubro de 2012

A chupeta do Adauto

O segredo que traumatizou a personagem Adauto da novela "Avenida Brasil" é muito mais relevante socialmente do que saber quem matou o Max.
Toda uma vida foi protelada e subalternizada pelos seus próximos porque o rapaz chupava chupeta escondido, tinha pavor que descobrissem o fato e, consequentemente, o chamassem de "chupetinha", seu apelido do colégio.
Mas, afinal, é mesmo um grande problema ele chupar chupeta?
"Oras, ele é adulto. Adulto não chupa chupeta!", alguns diriam.
Será mesmo apenas uma questão geracional?
Se fosse uma mulher, também adulta, chupando chupeta haveria tanto motivo de chacota? Sinceramente, acredito que não.
O que estava em jogo era a masculinidade de Adauto.


A chupeta era a prova, para ele e seus pares, de que ele nunca "virou homem" de verdade. Atestava as marcas da sua fragilidade, ingenuidade, sensibilidade - características tipicamente femininas - que foram evidentes durante toda a novela, mas que se "personificou" na chupeta e evidenciou como a crueldade do machismo e da homofobia podem destruir a subjetividade de uma pessoa.
Seria esperar demais da emissora em questão que o tema fosse mais trabalhado que isso e o desfecho da trama foi meramente superficial: Chupeta queimada e o triunfo do gol. Ou seja, Adauto conseguiu "virar homem de verdade" com ajuda da sua namorada.
Decepções com o roteiro a parte, cabe a nós refletir e problematizar cotidianamente as questões de gênero impregnadas em nossos discursos e práticas. Cabe a nós desconstruir o machismo e a homofobia encarnados em nossa vida. Cabe a nós re-significar nosso olhar e o mundo a nossa volta e fazê-lo mais interessante, contextual e criativo.


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O cabelo do Gianecchini e o nosso racismo de cada dia

Cansei. Cansei de hipocrisia barata.
Você acha mesmo que não há racismo no Brasil?
Que discutir o assunto e lutar por políticas anti-racistas é um grande exagero porque somos uma nação tolerante, pautada pela mestiçagem e misgenação?
Faça um breve exercício, por favor: Escreva "cabelo do Gianecchini" no buscador do Google, leia meia dúzia das reportagens que aparecem e reflita criticamente o porquê a população repudiou seu galã com cabelo enrolado.
 

Sinto informar que não há escapatória para a conclusão: Nosso padrão de beleza (estético) é racista.
Só há uma beleza genuína em nosso imaginário e ela é branca, de cabelo liso e traços finos. O que desvia disso flerta com o feio, o bizarro e, pasmem, com a sujeira.
A miscigenação foi (e é) valorizada e incentivada porque na maioria dos casos ela embranquece. Não se iluda, se ela escurecesse ou reforçasse os traços negróides das pessoas ela não seria aplaudida pela nação brasileira.
O Gianecchini é prova disso. Ele enegresceu, por meio dos cabelos, e foi repudiado.
No entanto, o ator parece ser uma pessoa bem amparada emocional e materialmente e tal agressão racista não lhe causará tanto impacto.
Mas como ficam @s milhões de brasileir@s que diariamente são bombardead@s simbolicamente com discursos que destroem a sua auto-imagem?
Muitos estão literalmente queimando suas cabeças com formol para embranquecerem e ficarem "mais bonitos".
O racismo mata e, na maioria dos casos, mata aos poucos, de dentro para fora.
Isso tem que acabar.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O novo presidente do STF e, acreditem, as cotas



O Ministro Joaquim B. Barbosa Gomes tem, de um modo geral, empolgado positivamente a população brasileira com sua postura no julgamento do “mensalão”. O que é muito merecido, pois revelou um relatório/voto sério e idôneo oriundo de um trabalho árduo e, sem dúvida, sob muita pressão.
Ontem ele foi unanimemente eleito Presidente do STF. Um dos cargos mais altos e importantes de nosso país. Fato que me emocionou fortemente, assim como grande parcela da sociedade.

Porém, hoje, deparei-me com inúmeras provocações afirmando que o mesmo é negro e não precisou de cotas para chegar onde chegou. (Parem tudo!)


Tal incoerência (O Ministro é um dos maiores defensores das referidas políticas na atualidade) que se pretende irônica, apenas confirma minha tese: As ações afirmativas para população não-branca é o maior "dedo na nossa ferida". Não há tema, discussão e política que incomodem e mexam mais com nossas estruturas e lógicas coloniais do que as cotas para população negra e indígena.


Mesmo diante de um momento e de uma história de vida que congregam politicamente a população, as cotas aparecem como discórdia.


As mesmas já são uma realidade nas universidades brasileiras há uma década. O projeto de Lei que as determina nas instituições de ensino superior (IES) federais foi aprovado nas duas casas legislativas, após anos de debate e intensa oposição midiática. A presidente Dilma fez questão que a referida lei fosse sancionada em uma sessão solene, devido a importância da mesma. O STF declarou as mesmas constitucionais e absolutamente necessárias. Ou seja, todo o Estado brasileiro confirmou a constitucionalidade, importância e necessidade das ações afirmativas para populações negras e indígenas. Porém, essas continuam sendo atacadas incessantemente por uma população ludibriada pelo falso ideário de que não somos tão racistas assim.


As ações afirmativas para população não-branca são as únicas políticas que além de promoverem equidade racial, combaterem os discursos e práticas racistas, também provocam o incomodo absolutamente imprescindível para a percepção de que ainda somos uma sociedade subjetivamente colonizada. Incômodo capaz de perdurar mais de uma década, enfrentando gigantes políticos, acadêmicos e midiáticos e ainda sim perseverar, transformar e melhorar a nossa sociedade.


Os espaços que produzem e disputam poder e conhecimento não são mais os mesmos. As pessoas que lá circulam e atuam não possuem mais a mesma cor, história e origem, o que mesmo inconscientemente tem provocado mudanças essenciais.  Hoje temos em nossas IES inúmeros estudantes de arquitetura  e engenharia civil que cresceram em CDHU’s e afins, estudantes de medicina que sempre dependeram dos sistemas  públicos de saúde, estudantes de direito que foram constantemente abordados por policiais simplesmente porque não possuem um perfil de “gente de bem”, estudantes de química que cresceram lendo em rótulos de xampu e condicionador que seus cabelos precisam ser domados, estudantes de administração que sentiram na pele a discriminação de um processo seletivo que prioriza o que é socialmente entendido como “boa aparência”. Enfim, a experiência dessas vidas marcadas pela crueldade da diferença hierarquizada pode, se quisermos, mudar a maneira como enxergamos o mundo e produzimos conhecimento sobre ele. 


Para isso, precisamos seguir e não mais perder tempo com a discussão sobre ser ou não favorável as cotas. Elas já são uma realidade, queira você ou não. Esse debate é a última estratégia que restou para as elites conservadoras de nosso país. Agora, a discussão é e deve ser qualitativa. Qual tipo de transformação queremos que as ações afirmativas provoquem? Estamos em momento crucial, no qual podemos fazer dessas políticas um meio de alterar nossa subjetividade colonizada, a começar pela reforma de todo currículo educacional, do ensino básico à pós graduação, desconstruindo nossa epistemologia eurocêntrica, portanto, racista, xenófoba, machista, homofóbica, entre outras discriminações correlatas.

Acredite, as cotas não te incomodam à toa. Incomodam porque te obrigam a pensar. E pensar dói.