domingo, 19 de junho de 2011

Vomitando alguns "sapos"

Meus prazos estão mais do que estourados. Tenho páginas incontáveis para preencher: relatórios, provas, tese, artigos, etc. Estou literalmente com a corda no pescoço.
Porém, algo me impede, estanca minhas palavras e não consigo produzir.
Hoje me perguntei se não seria um congestionamento de vocábulos, sentimentos e palavrões na minha garganta o que estaria atrasando a minha “pauta oficial”.
A resposta? Provavelmente sim. Diante disso, resolvi liberar o trânsito das minhas idéias engasgadas e escrever nesse blog novamente....

 

Li, um pouco mais cedo, que a ONU deliberou que os direitos universais não devem ser restringidos em razão da sexualidade dos sujeitos. Parece algo óbvio, não é? Não foi para 19 delegados que se manifestaram contrários e 3 que se abstiveram.
A decisão foi bem apertada. Uma vantagem de apenas três votos definiu que a dignidade humana manifesta nos direitos universais deve ser cumprida de forma integral a tod@s, independentemente das suas relações afetivas e sexuais. Ou seja, a sua sexualidade, a minha ou de qualquer outra pessoa não deve definir o sentido e as garantias da humanidade que vigora em nós.

Na próxima semana, ocorrerá a maior Parada do Orgulho Gay do mundo, na cidade de São Paulo, que terá como tema a frase bíblica "Amai-vos uns aos outros" como gancho para a exigência da criminalização da homofobia, por meio do projeto de lei 122/06. Trata-se de um debate que deveria ser realizado com coerência política, histórica e judicial, mas que, infelizmente, tem sido tumultuado pelos cristãos que, assim como os 19 delegados da ONU, não admitem que pessoas não-heterossexuais tenham seus direitos básicos (vida, integridade física e emocional, etc) garantidos pelo Estado.

Para o meu bem, enquanto socióloga, e para o meu mal, enquanto ser humano, eu convivi a maior parte da minha vida com cristãos devotos, dentro e fora da igreja. Freqüentei escola dominical, cultos, acampamentos de carnaval, treinamentos, palestras, reuniões de oração e todo tipo de atividade que a igreja proporciona. Também li e estudei seriamente a bíblia durante anos. Eu me dediquei 100% ao cristianismo: corpo, mente, espírito, relações, desejos, subjetividade integralmente consagrados ao evangelho, como eu realmente acreditava que devia ser. Cumpri todas as regras comportamentais que a bíblia e a igreja exigem e para minha eterna vergonha eu agi exatamente como uma cristã exemplar: neguei a mim mesma a minha essência, a minha sinceridade, a minha humanidade. E o pior de tudo: incentivei outras pessoas a fazerem o mesmo.

Sabe o que acontece quando negamos a nossa humanidade? Sentimos que somos superiores de algum modo.

Perceber essa arrogância espiritual fingida de santidade por meio de falsos discursos sobre amor e humildade me fez compreender o quanto eu afastava e marginalizava aqueles que deveriam ser o “meu próximo”.  O quanto eu cruelmente exigia, daqueles que chamava de irmãos, que vivessem um único padrão “santo” de vida e de relação com o divino.

O chão literalmente abriu sob os meus pés quando compreendi que esse padrão de vida (que é socialmente coercitivo e impositivo até para aqueles que não são e não querem ser cristãos) exclui, discrimina, mata, humilha, segrega, desumaniza, demoniza tod@s que estão, de alguma forma, fora dele.

O ser humano é incrivelmente complexo e interessante! É impossível esperar que sejamos iguais. A diferença deveria dar sentido à humanidade, orientar nossas relações, potencializar nossos dons e não nos hierarquizar, marginalizando aqueles que o padrão exigido julga ser diferente e, portanto, desprezível.

O projeto de lei que pretende criminalizar a homofobia tem o mesmo histórico político da criminalização do racismo, do machismo e outras violências (físicas e simbólicas) contra pessoas que não correspondem às exigências do “padrão”.
Não é necessário pesquisar muito para constatar que durante séculos o cristianismo, por meio de discursos e relações de poder coloniais, tem desumanizado e demonizado as mulheres e os não-brancos. Literalmente @s perseguiu emocional, intelectual, espiritual, cultural e fisicamente, queimando, torturando, dizimando, assassinando tod@s que de algum modo confrontaram suas ordens. Tudo em nome de Deus.

Em nome de Deus, mais uma vez, milhares de brasileiros que se dizem “pequenos cristos” - significado da palavra “cristão”– julgam e perseguem as pessoas não-hetereossexuais tentando impedir que o Estado criminalize a homofobia e, portanto, normatize que ninguém deve ser agredido e discriminado física e simbolicamente em razão da sua sexualidade. Esse projeto de lei visa determinar que ninguém pode ter sua humanidade violada porque não é heterossexual. Essa lei é tão justa, honrada e necessária quanto a lei que criminaliza o racismo.

Os “pequenos cristos” argumentam que a lei os impedirá de proclamar que as sexualidades divergentes da heterossexual são pecados. Isso não é verdade. Poderão continuar rotulando o que é e não é pecado tranquilamente, até porque isso só interessa aqueles que acreditam no conceito em questão. O que ninguém mais poderá fazer sem ter que enfrentar um processo penal (seja cristão, budista, pastor, padre, ateu, judeu, agnóstico...) é desumanizar, humilhar, agredir, discriminar uma pessoa porque ela não é heterossexual.

O mesmo processo e a mesma resistência ocorreu em relação aos direitos para os não-brancos e às mulheres. Muitos cristãos entendiam que a bíblia legitimava o racismo e o machismo e achavam que teriam seu direito de proclamar a “palavra de deus” cerceado. O tempo demonstrou que não é bem assim. Eu cansei de testemunhar sermões, normas e condutas machistas dentro das igrejas, pautadas pela bíblia. Na igreja em que congreguei, por exemplo, as mulheres não podem exercer nenhum dos cargos executivos e deliberativos, restam para elas apenas as funções domésticas. A pura e simples reprodução do ideário de que a mulher não é um sujeito político. Que Deus a fez para outras atribuições. Entretanto, fora daquela instituição qualquer membro dela que agir de modo a reproduzir esse ideário poderá ser judicialmente processado. E tod@s sabem disso ou, pelo menos, deveriam saber.

Por que a maioria dos brasileiros tem receio e pensa várias vezes antes de expor seu racismo, mas tem o maior orgulho de assumir sua homofobia?
Não é muito difícil concluir a resposta: Ninguém quer ser responsabilizado por um crime. 

Não existe a ingenuidade de que essa lei fará a homofobia desaparecer, assim como não fez com o racismo e com o machismo. Mas com certeza ela obrigará as pessoas a pensarem duas vezes antes de ofender, demitir, agredir e matar alguém porque não concorda com a maneira que ela se relaciona afetiva e sexualmente. E, principalmente, trará suporte jurídico e emocional para aqueles que cotidianamente são desumanizados por causa da sua sexualidade.

--------------
PS: De modo algum esse texto visa uma crítica pessoal a quem quer quer seja, (a não ser a mim mesma). Minha argumentação é estritamente direcionada à rede de relações e discursos que se estabelece em nosso país. Muitos dos meus amig@s são cristãos e alguns se tornaram indispensáveis em minha vida, assim como meus familiares. Por fim, saliento que conheci pessoas valiosas nas igrejas que congreguei e, principalmente, no movimento universitário cristão do qual fiz parte.

Nenhum comentário:

Postar um comentário