Eu tenho um ponto de partida para fatos complexos e polêmicos: Desconfiar de tudo que a mídia, principalmente a Globo, defende, apóia e/ou desqualifica.
Minha análise sobre os protestos estudantis na USP partiu dessa inquietação.
Os discursos midiáticos acerca dos estudantes e de suas manifestações são todos estereotipados e com intuito de desqualifica-l@s. E isso logo me chamou atenção. Por que estão tratando esse assunto, tão sério, de modo tão superficial? Por que generalizar e rotular tais sujeitos, ao invés de fazer sua função, que é investigar e levar ao público os detalhes, as causas e demandas de modo contextualizado?
Obviamente não é do interesse da mídia, nesse caso, fazer sua função. Ela esta nitidamente posicionada. Os estudantes, suas ações e suas demandas foram jogadas no mesmo saco e vendidas nas telas e capas como vagabundagem, irresponsabilidade e “coisas de maconheiro”.
Eu tenho inúmeras críticas à postura elitista (intelectual, racial, econômica, sexual, regional, etc) que vigora nos corredores e nas mentes da Cidade Universitária. O que, infelizmente, é o reflexo contemporâneo e evidente das conseqüências da colonização de nossas subjetividades e práticas. Pois, como diz Caetano Veloso, “Narciso acha feio o que não é espelho...”. Não é apenas na USP que estão os “Narcisos”. Eles estão no país inteiro. Acontece que na maior universidade da América Latina há uma maior concentração deles.
No entanto, o que ocorre nas últimas semanas naquele campus é reflexo de outra natureza. Os estudantes reclamam de algo problemático que tem ocorrido em diversos locais de nosso país. E que só ganhou tal proporção porque, agora, é na USP.
Há um acordo, em vários países do mundo, de que a polícia só entra nas universidades com autorização da reitoria. Isso tem um porquê razoável, devido ao histórico abusivo da polícia contra as manifestações estudantis e políticas, principalmente no Brasil – vide a última ditadura oficial.
O atual reitor da USP, o qual tem seu mandato sob rechaço em razão do nebuloso processo que o elegeu, estabeleceu um convênio com a polícia militar para coibir furtos, latrocínios, etc.
O verdadeiro problema esta nesse “etc”.
Pois há um conjunto complexo de significados, discursos e práticas ocorrendo na Cidade Universitária desde que a polícia lá se estabeleceu. Inúmeras intervenções abusivas contra funcionários, professores e estudantes foram reclamados nas últimas semanas. A apreensão dos três rapazes com porte de maconha foi apenas um estopim. Um estopim infeliz, que a mídia fez questão de explorar, ao máximo, para subverter o que de fato importa ser debatido socialmente.
Polícia não educa ninguém. E só discorda dessa afirmação aquel@s que sentem saudades da ditadura militar.
O que esta acontecendo na USP não é muito diferente do que vem ocorrendo nos morros do Rio de Janeiro, com a implantação das UPP’s – Unidade de Polícia Pacificadora. Ou seja, uma doutrinação arbitrária por meio da violência, repressão e disciplina dos corpos e mentes.
É um absurdo o que significa tais unidades. E mais absurdo ainda é a sociedade aceita-las de bom grado. O que não é difícil de entender quando observamos a maneira amistosa que a mídia narra as suas invasões e atuações. O que me preocupa seriamente é que toda a estrutura física e simbólica implantada lembra-me muito o Holocausto: As favelas cariocas se tornarão campos de concentração e nós ficaremos como telespectadores bobos e inertes perante o terror.
Ano passado, eu tive o desprazer de conhecer a UPP da Cidade de Deus. O policial parou meu carro e arrogantemente me ensinou o comportamento devido: “Quando você se aproximar da polícia deve desacelerar e desligar o farol. Se você tem medo da gente, a gente também pode ter medo de você e agir...”. Eu, descrente que aquilo pudesse ser real, apenas respondi “Eu não tenho medo de vocês. Eu deveria ter?”.
Ano passado, eu tive o desprazer de conhecer a UPP da Cidade de Deus. O policial parou meu carro e arrogantemente me ensinou o comportamento devido: “Quando você se aproximar da polícia deve desacelerar e desligar o farol. Se você tem medo da gente, a gente também pode ter medo de você e agir...”. Eu, descrente que aquilo pudesse ser real, apenas respondi “Eu não tenho medo de vocês. Eu deveria ter?”.
Desde então me interesso pela UPP. E o que descubro é de arrepiar os cabelos. Há horário de recolher, não se pode andar sem camisa em pleno calor carioca, não se pode ouvir música de bandido, ou seja, músicas afrobrasileiras: funk, rap, etc. Enfim, um projeto eugenista e higienista.
Infelizmente, o que ocorre nos morros cariocas, onde a maioria é negra e pobre, não interessa a quase ninguém. Já na USP a história é diferente. O que acontece lá interessa bastante e é por isso que o debate esta sendo empobrecido, superficializado e estereotipado pela mídia e pelo Estado. "Deixem que pensem que esses “USPianos” são um bando de vagabundos, maconheiros e mimados! Assim o que eles disserem e reivindicarem não fará o menor sentido e ainda serão condenados simbolicamente por todos."
Enquanto isso, nossa sociedade esta sendo doutrinada por uma polícia arrogante, despreparada, racista, machista e homofóbica...





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