Hoje é dia da Consciência Negra.
Há quem se pergunte se consciência tem cor ou raça.
Há dez anos, talvez, eu não soubesse responder ou onde procurar respostas.
Eu não tinha dúvida que eu era uma pessoa branca e, o mais incrível, eu
enxergava e entendia minha família como branca. E, pasmem, minha avó e
minha mãe, mulheres nordestinas e muito presentes em minha infância e
adolescência, estão distantes dos “padrões da branquitude” difundidos em
nosso país. Elas possuem cabelo crespo e
uma pele perceptivelmente mais escura que a minha. Porém, eu ignorei
tais indícios e segui convicta de nossa branquitude. Cresci
testemunhando um verdadeiro sofrimento subjetivo de minha irmã com seu
cabelo, que, segundo ela, era indesejável porque era muito armado, e
persisti na crença de que éramos tod@s branc@s. Talvez, eu possa
arriscar dizer que em todos os meus dias alguém tenha me questionado
sobre os meus olhos puxados: “Thais, você tem família japonesa?” ou
“Você é mestiça?” e, mesmo sabendo que tal característica deve-se a
minha próxima ascendência indígena, eu permanecia certa de que eu era
branca.
Eu me pergunto de onde veio esta consciência branca, se as marcas em nossos corpos a questionavam o tempo todo?
A resposta não esta necessariamente em nossos corpos, mas nos discursos que determinaram e deram sentido para eles. Discursos que até hoje estão presentes em nosso país e que afirmam que a beleza, a inteligência e os “bons costumes” estão incorporados na pele branca, nos cabelos lisos e nos traços finos. Discursos presentes nas histórias infantis, nas novelas, nas páginas dos jornais, nas escolas, nas faculdades e assim por diante. Todos os meios que informam e constroem nossas consciências reproduzem a noção de quanto mais branco você for ou puder ser é melhor. Esta lição é rapidamente aprendida por todos e por isso temos uma tendência enorme de embranquecer não apenas nossos corpos, mas também nossas histórias.
A quem diga “Thais, isso é um exagero. Somos todos seres humanos e devemos nos entender dessa forma, sem nos importar com as características que nos distinguem fisicamente.” Não tenho dúvida que esse ideal é formidável e deveria ser uma prioridade mundial. Mas é uma ingenuidade socialmente induzida acreditar que isso acontecerá simplesmente se valorizarmos a noção do “humano”, pois esse conceito já foi construído de modo hierárquico. Sempre existiram escalas para noção de humanidade e isso é perceptível em nosso dia a dia quando, por exemplo, nos compadecemos mais com a miséria de uma pessoa loira (e "bonitinha") do que com a miséria de uma pessoa negra. Fomos, infelizmente, ensinados a classificar quem é mais e menos humano. Portanto, se não houver uma problematização de como a humanidade foi simbolicamente formulada e organizada, não sairemos desse vício colonial e racista.
Comemorar o dia da Consciência Negra não significa apenas reconhecer e valorizar nossas origens não-europeias, significa, principalmente, fazermos um exercício de desconstrução da nossa consciência colonizada. Significa que vamos mapear onde e como os valores que dizem que “ser branco é melhor” são difundidos e exterminar tais lógicas por meio de uma re-significação que compreenda as nossas características e origens de modo relacional, complementar e interseccional e não mais hierarquicamente.
Portanto, reivindicar a Consciência Negra é, antes de tudo, gritar bem alto que não queremos mais ter uma consciência colonizadamente branca.

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